Por vezes olho as coisas
E desencadeia-se em mim
Como que uma sonolenta marcha
Ou uma droga, ou hipnose
E as coisas que imponentemente
Desabrocham e me cantam diante
Não penetram o meu ser
Não são
O sol põe-se
E solta como que um calor perfeito
Que tem a ver comigo porque
Me aquece o corpo e a face
Lentamente desce
Com aquela cor ideal
Há mais silêncio nas ruas, parece
E um barco suspenso pousa num desenho final
Penso em todas as vezes
Que deixei a vida passar
O instante, um gesto, o teu olhar
E não fico triste
Em mim desponta a vitória
Da imensidão de quem nos faz
Que todos os dias me volta a entregar
O milagre do mundo pra me acenar